Gilberto Mendes e Rubens Russomanno Ricciardi - direção artística do Festival Música Nova desde 2012 na USP de Ribeirão Preto

51º Festival Música Nova "Gilberto Mendes" 2017 - Programação completa

In Memoriam Olivier Toni

De 23 a 27 de outubro de 2017.

O compositor, maestro, professor e fagotista paulistano George Olivier Toni foi um dos nomes centrais da música brasileira, e em especial paulista, na segunda metade do século XX. Aluno de Camargo Guarnieri e Hans-Joachim Koellreutter, foi definido certa vez, por Gilberto Mendes, como “síntese dialética do neo-folclorismo e das linhas de Darmstadt”, as principais vertentes da música moderna no Brasil.

Fagotista da Orquestra Sinfônica Municipal de São Paulo, guardou dali belas memórias, como ter atuado em alguns concertos sob a batuta de Heitor Villa-Lobos. O jovem Olivier Toni ia comprar os charutos a pedido, e depois, fumavam juntos, recebendo a recomendação do grande compositor carioca: “fume o charuto aí meu jovem, porque homem tem que fumar” – episódio este sempre narrado com rara emoção. Mas é claro que, além disso, a monumentalidade de Villa-Lobos iria impregnar o futuro mestre paulistano, que me aconselhava anos mais tardes, “lembre-se disso, Rubens, nas ocasiões mais importantes toque sempre Bach, Mozart ou Villa-Lobos” – cujas obras receberam algumas vezes novas orquestrações por parte do próprio Olivier Toni.

Em sua carreira de maestro destacam-se as inúmeras vezes, sempre a convite de Eleazar de Carvalho, nas quais Olivier Toni regeu como convidado a OSESP e a OSPA, entre outras importantes orquestras brasileiras.

O incansável espírito inovador a bem do serviço público e do desenvolvimento da música em São Paulo e no Brasil, levou Olivier Toni a fundar instituições que hoje são da mais alta relevância na capital paulista. Sempre defendendo e tendo em vista o ensino público e gratuito da mais alta qualidade em seus empreendedorismos, Olivier Toni é fundador da Escola Municipal de Música de São Paulo (com apoio do então prefeito Faria Lima), Orquestra Sinfônica Jovem Municipal de São Paulo (que posteriormente teve seu nome trocado para Orquestra Experimental de Repertório), Orquestra de Câmara de São Paulo (hoje não mais em funcionamento, mas que fez história em sua época), do Departamento de Música da ECA-USP (do qual foi chefe por muitos anos, tornando-se seu primeiro professor titular, sempre em RDIDP), das Bienais de Música de São Paulo (um dos grandes eventos musicais na história da USP), do Festival de Música de Prados (em trabalho conjunto de décadas com o igualmente saudoso maestro pradense Adhemar Campos Filho), da OSUSP, da OCAM, além de ter me sugerido e incentivado incisivamente a fundar a USP-Filarmônica em Ribeirão Preto. Por várias vezes meu mestre Olivier Toni me disse, “eu tenho orgulho de ter inventado quase todos os empregos que tive, e você deve seguir o mesmo caminho”.

Olivier Toni concentrou sua atuação acadêmica em duas frentes. De um lado, a pesquisa e o resgate da música mineira colonial, e, de outro, a música contemporânea. Neste sentido, Olivier Toni é um pilar fundamental da história do próprio Festival Música Nova, com participação decisiva em inúmeras edições, seja como compositor ou maestro, bem como foi indiscutivelmente o principal líder do grupo que redigiu o Manifesto Música Nova, em 1963, mesmo que seu nome não conste entre os signatários.

Destaca-se em sua atuação como professor e mestre, anteriormente e já depois na USP, a formação de grandes nomes da música brasileira, tais como Gilberto Mendes, Rogério Duprat, Régis Duprat, Willy Correa de Oliveira, Mario Ficarelli, Rufo Herrera, Carole Gubernikoff, Paulo Cesar Chagas, Paulo Sérgio Guimarães Álvares, Marcos Câmara de Castro, Silvia Maria Pires Cabrera Berg, Cláudio Cruz e tantos outros. Seu último local de atuação como professor foi a USP de Ribeirão Preto, quando já emérito da ECA-USP, deu aulas aqui por alguns anos, colaborando diretamente na consolidação do novo curso, tendo sido responsável direto pela formação ainda de novos valores ribeirãopretanos, entre eles, Lucas Eduardo da Silva Galon e Camilo Calandreli.

Em Ribeirão Preto também, por minha intermediação e de Cláudio Cruz, Olivier Toni chegou a reger por diversas vezes a OSRP nos anos anteriores à fundação da USP-Filarmônica, nossa orquestra acadêmica que só não chegou a reger porque a saúde já não mais lhe permitiu. Mas Olivier Toni ainda assim presidiu a primeira seleção de bolsistas da USP-Filarmônica, em 2011, acontecimento que muito honra nossa história.

De minha humilde pessoa, resta-me a gratidão pelos ensinamentos recebidos, pois devo minha formação intelectual e musical a Olivier Toni. Em 2007, minha homenagem não poderia ter sido mais sincera dando seu nome ao meu segundo filho, Olivier Vincenzo, numa dupla homenagem, tanto a Olivier Toni, como a Vincenzo Galileu, exemplos de postura crítica e de espíritos fortes que não se submetem a nenhum tipo de arbitrariedade, promovendo ainda a inovação sempre inconformada do conhecimento. Lembro-me com enorme carinho das aulas particulares que tive com Olivier Toni, desde 1979, na ECA-USP e em especial em sua casa, na Rua Joaquim Távora, em São Paulo. Durante vários anos recebia suas aulas aos sábados à tarde, que culminavam com o lanche preparado pela Dona Maria Helena. Certa vez comentei, “Dona Maria Helena, a senhora é esperta, a senhora prepara lanche, minha mãe serve jantar”, e, para o meu azar, minha frase matuta foi repetida centenas de vezes, com meu mestre sempre imitando nosso sotaque caipira. Quando indagava pelo meu irmão politécnico Ciro Terêncio, a pergunta era sempre “cadê marrrrmão?” – na verdade deveria ser “cadê meu irmão?”, com o professor Toni imitando de forma exagerada nosso “r” já carregado da Alta Mogiana. Nosso convívio ininterrupto desde então, passando pela graduação e pela orientação de minha tese de doutorado na ECA-USP, durou até poucos dias antes de sua morte, quando o vi pela última vez no HCor em São Paulo. Em minha última visita naquele hospital, jamais vou me esquecer de nossa alegria ao cantarmos juntos a Internacional – que era o toque de seu celular, bem como fica a grata memória de poder ter lhe mostrado algumas das últimas gravações de concertos da USP-Filarmônica, com certeza recebidas com grande alegria, e se assim posso dizer, também com orgulho.

Foram muitas histórias em dezenas de viagens conjuntas a Minas Gerais, buscando sempre fontes primárias de nossa música colonial e nos festivais de Prados. Guardo também como feliz lembrança o grande concerto que idealizei e organizei, em 1991, para que meu mestre Olivier Toni pudesse reger a magnífica Kammerorchester Berlin e o Chor der Humboldt Universität, no grande Schauspielhaus (hoje Konzerthaus), o mais tradicional palco da música sinfônica em Berlim. Apresentamos ali pela primeira vez na Europa algumas das obras de Manuel Dias de Oliveira e José Joaquim Emerico Lobo de Mesquista.

Olivier Toni nos deixou sua singular redução para piano do célebre moteto Miserere de Manuel Dias de Oliveira, com a recomendação expressa, “Rubens: para você tocar num dia, que estou certo que saberá escolher...”. Vamos, portanto, abrir o 51° Festival Música Nova “Gilberto Mendes” com esta belíssima partitura. Nada mais digno que o Theatro Pedro II (o melhor palco sinfônico e operístico paulista) e o Festival Música Nova “Gilberto Mendes” para sua comovente memória. Homenageia-se todos professores do ensino público e gratuito em nome deste professor que fez (a nossa) história.

Por Rubens Russomanno Ricciardi

De 23 a 27 de outubro de 2017.


50º Festival Música Nova "Gilberto Mendes" 2016 - Programação completa

In Memoriam Gilberto Mendes e Pierre Boulez

O Festival Música Nova “Gilberto Mendes” é de um cosmopolitismo avançado no sentido de Antonio Gramsci, porque "as verdadeiras obras internacionais são as obras nacionais, e as verdadeiras obras nacionais acolhem as tendências internacionais" (Bertolt Brecht). O FMN é um festival de arte contemporânea, aberta a todas as correntes - incluindo-se neofolclóricas, neoclássicas, experimentais, pós-vanguarda e também se abrange epígonos vanguardistas, velhos ou novos, por conta das origens do FMN no Manifesto Música Nova.

O FMN se preocupa com o estímulo aos novos talentos, bem como insere em sua programação compositores e obras de músicos da nova geração, visando o fortalecimento da música nova. As ações conjuntas do SESC e da USP envolvendo demais universidades é essencial para viabilizar o caráter didático e de apoio à formação por meio da música contemporânea.

Cada vez mais o FMN assume sua condição de ser um festival voltado aos novos talentos da música contemporânea, em especial com atividades atreladas não só à USP de Ribeirão Preto, como também às mais importantes universidades brasileiras. Em 2016, em sua 50ª edição, o FMN contará com compositores e músicos da UNB (Brasília), UFBA (Salvador) e UFRGS (Porto Alegre), além dos convidados internacionais de Berlim e da Escola Superior de Música da Universidade de Münster (Alemanha).

Como sempre, o FMN realiza masterclasses em performance com seus músicos convidados, Stephan Froleyks (professor de percussão da Escola Superior de Música da Universidade de Münster, Alemanha), Johannes Grau (jovem tenor de já brilhante carreira internacional), Claudio Rogério Giovanini Micheletti (violinista spalla da OSUSP e da OER em São Paulo), Sara Lima (primeira flautista da Orquestra Sinfônica de Goiás em Goiânia), Lamartine Tavares (professor de fagote do Instituto Federal de Goiás em Goiânia) e Nikolay Genov (trompista da OSESP em São Paulo). Teremos ainda uma mesa redonda com a participação dos compositores residentes convidados: Paulo Costa Lima, Flávio Oliveira, Stephan Froleyks e Jorge Antunes, envolvendo questões da música contemporânea em um debate sobre a atualidade experimental da vanguarda.

Destacam-se nos concertos da Banda Mogiana e da USP-Filarmônica as homenagens a Gilberto Mendes. Em especial o programa da USP-Filarmônica, com canções de Friedrich Holländer, ao lado de canções brasileiras, foi sua última concepção de proposta de um programa para o FMN, elaborada em dezembro de 2015, poucos dias antes de seu falecimento. Gilberto Mendes, inovando até o último instante, idealizou um programa integrando o repertório de cinema dos anos 30 com as canções pré-Bossa Nova dos anos 50 do século passado. Um concerto sinfônico só com canções, numa mesma confluência poética - algo que ocorre pela primeira vez na trajetória do FMN.

Todos os concertos são gratuitos, numa parceria do SESC-SP com a USP de Ribeirão Preto, sendo essencial o caráter de acessibilidade do FMN, um festival aberto a toda comunidade, trazendo o amplo público para a música de concerto de hoje.

Mantendo-se a fidelidade à concepção de Gilberto Mendes de um festival que apresenta não apenas a música contemporânea, mas também a música nova e o espírito de inovação na composição musical em todos os tempos, a Banda Mogiana vai apresentar o madrigal Moro lasso de Gesualdo, que por seu maneirismo singular é considerada uma das obras mais experimentais em toda a história da música.

A 50ª edição do Festival Música Nova “Gilberto Mendes”, com especial comoção, está, portanto, dedicada à memória de seu fundador, Gilberto Mendes, falecido a 1º de janeiro de 2016, e de Pierre Boulez, falecido a 1º de janeiro de 2016. O FMN 2016 presta uma dupla homenagem a estes dois ícones da música nova que nos deixaram este ano.

Direção artística do FMN “Gilberto Mendes” pela USP

49º Festival Música Nova "Gilberto Mendes" (2015) - Programação completa

Gilberto Mendes, idealizador e fundador do Festival Música Nova que hoje leva seu nome, sempre incansável no experimento de novos projetos, agora está também atuando como ator de cinema, tendo atuado recentemente no filme Com Meus Olhos de Cão, sob direção de Thaís Almeida Prado. Este grande acontecimento não pode passar em branco. Temos que comemorá-lo aqui. Abrindo o programa do 49º Festival Música Nova “Gilberto Mendes”, neste mesmo contexto, apresentamos texto redigido pela atriz e diretora teatral Nathalia Lorda, convidada de nosso festival e que, recentemente, como atriz, também atuou ao lado de Gilberto Mendes.

Por Rubens Russomanno Ricciardi

48º Festival Música Nova "Gilberto Mendes" (2014) - Programação completa

A música nova da polifonia de Notre Dame ao século XXI

O FMN já possui certo distanciamento crítico para poder se auto-avaliar desde sua nova proposta, em 2012, quando o SESC-SP em conjunto com a USP de Ribeirão Preto passou a sediá-lo, com a inclusão, na programação, da música nova de todos os tempos - desde a invenção da própria música, tal como a entendemos, pelas mãos dos gregos antigos.

Esta mudança de rumo talvez tenha suscitado alguma querela. Perguntou-se, afinal, por que estaria presente a música do passado - como Machaut, Gesualdo, Bach ou Beethoven - junto às composições vanguardistas das velhas linhas de Darmstadt, ao lado de composições minimalistas, eletroacústicas, espectrais ou texturais, entre os gestos característicos da improvisação livre e os conglomerados poli-estilísticos pós-vanguarda? Será que em algum lugar se perdeu a essência experimental do FMN? Com o novo sucesso de público, desde 2012, temos de fato a negação do experimentalismo? Muito pelo contrário.

Inicialmente, há que se compreender as diferenças entre experimentalismo e vanguarda. Para Umberto Eco, “toda verdadeira invenção artística é experimental em todos os tempos e lugares. Neste sentido, a música polifônica era experimental em relação ao cantochão. Beethoven era experimental em relação a Haydn, e assim sucessivamente”. Stravinsky, Bartók e Villa-Lobos foram altamente experimentais e inventivos em seus trabalhos com as músicas populares já urbanas, desde Brahms com suas danças húngaras e Chopin com suas mazurcas. Ainda para Umberto Eco, “entre os séculos XII e XIII, os compositores polifonistas de Notre-Dame foram experimentais quando adotaram o intervalo de terça pela primeira vez para que se tornasse aceito pela sensibilidade musical corrente”. Umberto Eco conclui que, ao contrário das “lentes deformantes de uma sabedoria tradicional e autoritária, faz parte do experimentalismo a constante transformação do método, falando com simplicidade”. Ou seja, o experimentalismo é uma postura incansável de mudança e auto-superação. Neste mesmo sentido, já distante da rigidez da velha vanguarda e aberto à música nova de todos os tempos, o FMN permanece experimental, porque entende que nossos tempos são dos sistemas abertos, bem como dos diálogos entre os sistemas.

Não somos nós, mas sim Charles Baudelaire quem já há muito percebia a armadilha na tradição das metáforas militares, como no caso de se pensar numa vanguarda (conceito de origem evidentemente militar) no contexto artístico. Baudelaire chamou a atenção para “os poetas de combate”, para “os literatos de vanguarda”, cujos “hábitos de metáforas militares denotam espíritos não militantes, mas feitos para a disciplina, isto é, para o conformismo, espíritos nascidos domésticos”. Seria uma visão profética de Baudelaire? O que antes se pensava como inovação e desprendimento não pode agora se transformar numa doutrina de corporação, cuja assimilação, obediência e fidelidade diante da patrulha ideológica adquirem mesmo os rigores de uma hierarquia militar? Seria o caráter evidente de exclusão em nome da uniformidade. Nossa proposta, desde 2012, ao contrário, contempla a pluralidade, o não-padrão, e, acima de tudo, a inquietude filosófica.

Schönberg, um dos gurus da primeira vanguarda pós-guerra, afirmou “ter orgulho em escolher uma má estética para os alunos de composição, se em compensação der a eles um bom aprendizado de artesanato”. Esta ideologia gerou alguns resultados desastrosos em Darmstadt e continua gerando em seus últimos epígonos ainda hoje - não obstante várias de suas importantes contribuições históricas. Está claro que houve certa precariedade filosófica na geração dos compositores da vanguarda autoproclamada. Permaneceram na superfície de uma autoidolatria tanto excêntrica quanto excludente. Assim, esqueceram-se do mundo. Não é por menos que também o mundo se esqueceu deles e nem cabe aqui lembrá-los mais enquanto único caminho para a música nova. Ao contrário, vamos nos lembrar agora também daqueles que eles tentaram esquecer. É por isso que apresentamos nesta 48ª edição do FMN obras de compositores como Villa-Lobos - historicamente execrado pelas primeiras fileiras da velha vanguarda - e também o já centenário Guerra-Peixe, ao lado de uma compositora inédita no Brasil, a alemã Dorothea Hofmann, nossa compositora residente desta edição 2014 do FMN.

Com três sedes em 2014, Ribeirão Preto, São Paulo e Santos, o FMN se consolida cada vez mais em sua 48ª edição por meio do trabalho conjunto do SESC-SP com a USP de Ribeirão Preto, com seu caráter didático enquanto festival que além de concertos oferece também cursos, procurando viabilizar sempre já um maior acesso do público em geral à música nova, ampliando e abrindo assim o espaço da música de concerto de nossos tempos.

Por Gilberto Mendes, Rubens Russomanno Ricciardi e Lucas Eduardo da Silva Galon

47º Festival Música Nova "Gilberto Mendes" (2013) - Programação completa

A música nova do século XXI e de todos os tempos

Desde 2012, o Sesc-SP passou a sediar o Festival Música Nova “Gilberto Mendes”, em estreita parceria com a Universidade de São Paulo em seu campus de Ribeirão Preto, apresentando ainda parte da programação nas suas próprias salas em São Paulo e Santos.

Além de concertos sinfônicos e música de câmara, o FMN também organiza cursos, palestras e masterclasses com professores e artistas especialmente convidados, em plena sintonia com a vocação de ensino, pesquisa e extensão da USP, bem como contemplando atividades nas três principais áreas da música: a composição, a interpretação-performance e a pesquisa musicológica.

Em sua 47ª edição, além do repertório contemporâneo do século XXI, o FMN propõe diálogos entre a música contemporânea e a música revolucionária do passado. O FMN atinge, assim, sua maioridade e vai mostrar, daqui para a frente, também a música nova de todos os tempos e linguagens.

A música de invenção desde a Idade Média, com a École de Paris, os compositores Perotin, Leonin, passando pela Ars Nova, com Machaut, Landini, a clareza formal renascentista, com Palestrina, Banchieri, a barroca Nuove Musiche italiana, a definição do contraponto atual nas Variações Goldberg de Bach, a harmonia já moderna, quase piano bar de hoje, nos Prelúdios, Estudos e Consolações de Chopin e Liszt, as surpreendentes complexidades estruturais dos últimos quartetos e sonatas para piano de Beethoven, o novo sistema harmônico por tons inteiros de Debussy, a politonalidade de Stravinsky, até a atonalidade serial dodecafônica de Schönberg a Stockhausen, que dominou sua programação mais característica através destes cinqüenta e um anos de atividade.

Absolutamente sem preconceitos ou partidarismo com relação, principalmente, a possíveis antagonismos entre as diferentes poéticas musicais de nosso tempo, pesquisará o novo sob todas as formas, inclusive a neo-folclorista e a neo-clássica...

Enfim, vai colocar em evidência os muito diferentes pilares que sustentaram todo um histórico fluir musical em permanente transformação.

Por Gilberto Mendes e Rubens Russomanno Ricciardi

46º Festival Música Nova "Gilberto Mendes" (2012) - Programação completa

Se por um lado pode ser triste o Festival Música Nova deixar de ser comandado pela cidade de Santos, onde ele nasceu e continuou por tantos anos, é maravilhoso, também, que possa continuar, não mais nas mãos de meia dúzia de heróis musicais lutando pela sua sobrevivência, por verbas institucionais. Finalmente agora ele será realizado por uma entidade pública, a Universidade de São Paulo, através de seu magnífico e já renomado Departamento de Música da FFCLRP-USP em Ribeirão Preto. Era o que faltava, essa consagração do FMN, não mais realizado, daqui para frente, por um pequeno grupo de abnegados cidadãos, mas sim pelo Estado, pela USP de Ribeirão Preto, sob a direção artística de Rubens Ricciardi, meu ex-aluno, hoje professor titular da USP.

Por outro lado, o sempre magnífico SESC São Paulo, além de apoiar a consolidação de sua nova sede do Festival Música Nova em Ribeirão Preto, não permitiu que o Festival terminasse em São Paulo, e vai garantir sua continuidade em nossa grande metrópole cultural, como já vem fazendo há vários anos. De certo modo, Santos e Ribeirão Preto são cidades irmãs. Uma sempre produziu o café que a outra exportava, através de seu porto. Estamos em família.

Magnífica esta reabertura do Festival. Não é preciso falar dos grandes artistas que vão se apresentar. Por favor, leiam atentamente todo o nosso programa!

Por Gilberto Mendes


A Universidade de São Paulo passar a sediar, em parceria com o SESC São Paulo, a partir de 2012, o Festival Música Nova Gilberto Mendes - a mais antiga mostra internacional de música contemporânea das Américas, completando 50 anos de existência em sua 46ª edição. Através de notícias de jornais e entrevistas, nosso mestre e grande compositor santista, Gilberto Mendes, na boa saúde de seus 90 anos, manifestou, no ano passado, seu desejo de que o Festival Música Nova, a partir de 2012, mantivesse um sólido vínculo institucional permanente com a Universidade de São Paulo. Lembramos que sempre houve uma forte relação do Festival Música Nova com a USP, desde quando o Curso de Música da ECA-USP foi fundado, em 1969, através da atuação de professores como o próprio Gilberto Mendes, além de Olivier Toni, Willy Corrêa de Oliveira e Caio Pagano, entre outros.

Este vínculo histórico com a USP agora se consolida no novo Departamento de Música da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto, cujas atividades acadêmicas se iniciaram em 2011. O Festival Música Nova Gilberto Mendes, além da apresentação de concertos sinfônicos, de música de câmara e eletroacústicos, passa também a se constituir de cursos, palestras e masterclasses com professores e artistas especialmente convidados, em plena sintonia com a vocação de ensino, pesquisa e extensão da USP, bem como contemplando atividades nas três principais áreas da música: a composição, a interpretação-performance e a pesquisa musicológica.

Por Rubens Russomanno Ricciardi